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Só quem nunca olhou para dentro se identifica com os seus troféus

7 de jul.
4 min de leitura

Existe uma ilusão perigosa que alimenta a nossa sociedade: a de que o sofrimento é um problema de logística. Acreditamos, piamente, que se organizarmos a vida perfeitamente, se alcançarmos o cargo ideal, o casamento dos sonhos, a conta bancária segura e o reconhecimento público, a angústia simplesmente não encontrará uma fresta para entrar.



Na minha prática clínica como psicóloga, atendo diariamente o colapso dessa mentira.


O consultório é o lugar onde os troféus perdem a utilidade. É onde pessoas que conquistaram tudo sentam à minha frente, tiram a armadura e revelam um vazio que nenhuma medalha consegue preencher.


Muitas pessoas chegam à terapia profundamente culpadas. Elas olham para as próprias vidas, veem uma lista impecável de realizações e se perguntam: "Por que eu ainda sinto isso?". Sentem ansiedade incapacitante, um medo constante de serem desmascaradas, uma culpa crônica por não estarem felizes e uma dificuldade brutal de desfrutar das próprias vitórias.


O erro está em confundir resultado com saúde emocional.

Identificar-se exclusivamente com as próprias conquistas é um sintoma. É tentar usar o aplauso externo como um curativo para uma ferida que é interna, profunda e que exige um olhar que o dinheiro ou o status não podem comprar.

Quando a nossa identidade se baseia apenas no que fazemos ou no que temos, nos tornamos reféns do próximo objetivo. A vida vira uma esteira sem fim:

  • O sucesso profissional vira obrigação de nunca falhar;

  • O casamento perfeito vira uma fachada difícil de sustentar;

  • O reconhecimento vira um peso que esmaga a espontaneidade.


O primeiro grande motivo pelo qual o sucesso não cura o interno é que o mundo externo e o mundo interno operam com moedas completamente diferentes.


Quando uma pessoa sofre de ansiedade crônica, sentimento de vazio, rejeição ou falta de valor reprimida desde a infância, ela carrega uma dívida emocional. O erro clássico é tentar pagar essa dívida afetiva com a moeda do prestígio.

  • Você não cura o medo de ser abandonado se tornando o CEO da empresa;

  • Você não preenche um vazio existencial comprando uma casa de luxo;

  • Você não resolve a falta de autoaceitação colecionando curtidas, elogios ou medalhas.


É como tentar pagar a conta de luz com milhas aéreas: a moeda simplesmente não é aceita ali. As conquistas mudam o seu cenário de vida, o seu entorno, mas não alteram a estrutura de como você se sente na sua própria pele. Se você se sente inadequado, será um inadequado de sucesso. O cenário muda, o roteiro interno continua o mesmo.


Há algo ainda mais perverso: muitas vezes, o sucesso piora a saúde emocional em vez de ajudar.


Quando você é validado apenas pelos seus resultados, sua mente inconsciente cria uma regra rígida: "As pessoas só gostam de mim, só me respeitam e eu só tenho valor se eu continuar vencendo".


O aplauso externo, portanto, não cura a insegurança; ele cria uma gaiola de ouro. A pessoa entra em pânico crônico porque o peso de manter o topo é muito maior do que o esforço para chegar lá. É por isso que tantas pessoas bem-sucedidas são assombradas pela Síndrome do Impostor ou vivem com medo de serem desmascaradas. O sucesso vira uma ameaça, uma cobrança de perfeição que esmaga o direito de ser humano, errar e falhar.


Não importa o tamanho do seu palco, a dor humana é democrática. Vimos isso acontecer de forma crua e pública neste último domingo, dia 5 de julho, com a eliminação do Neymar na Copa do Mundo contra a Noruega.


Independentemente de debates esportivos, a fala recente do jogador sobre saúde mental resume perfeitamente o que acontece nos bastidores do sucesso. Ele admitiu que, após períodos de pressão extrema, foi a primeira vez que seu emocional foi para o zero, precisando de suporte psicológico real para não desabar.


Se um dos maiores atletas do planeta, cercado de recursos, fama e conquistas inimagináveis, experimenta o esgotamento absoluto e a falência do próprio emocional, por que ainda insistimos em acreditar que o nosso sucesso vai nos blindar da dor?


O sofrimento não é negociável. Ele não aceita suborno de conquistas.


Na clínica, meu papel não é ajudar o paciente a performar melhor ou dar dicas de produtividade para que ele conquiste o próximo objetivo. O papel da terapia é justamente o oposto: é ajudar a pessoa a desvincular o seu valor pessoal dos seus resultados.


Saúde emocional não é sobre o que você entrega para o mundo; é sobre como você lida com o que acontece dentro de você quando o mundo não está olhando.

  • É ter a capacidade de sustentar o tédio sem se desesperar;

  • É conseguir deitar a cabeça no travesseiro sem precisar de uma lista de metas cumpridas para se sentir digno de amor;

  • É conseguir olhar para as próprias falhas e vulnerabilidades com compaixão, e não com chicoteamento.


A dor emocional não some porque você venceu. Ela só se transforma quando você para de fugir dela usando as suas conquistas como distração.


O convite que faço no consultório e que estendo a você agora é um exercício de desarmamento.


Se tirarem de você o seu cargo, o seu status financeiro, o reconhecimento que você tem no seu círculo social e os títulos que você ostenta... o que sobra? Quem é você quando não está produzindo, vencendo ou agradando ninguém?


Se a resposta a essa pergunta te causar um desconforto ou um silêncio constrangedor, não desvie o olhar. Esse vazio não se cura com mais um troféu na estante. Ele se cura aprendendo a olhar para quem você é, e não apenas para o que você construiu.



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